

As condutas criminosas que chocam quando ocorrem fora do universo esportivo continuam sendo crimes quando praticadas por torcedores. A diferença é que, nos estádios e nos centros de treinamento, muitas vezes esses atos são relativizados, como se a paixão pelo clube servisse de atenuante. A lei existe para ser cumprida e para punir quem a descumpre.
Passar a mão na cabeça, relevar comportamentos violentos ou tentar encontrar justificativas para o injustificável é compactuar com a barbárie. Esse tipo de conivência não ajuda a tornar o futebol um ambiente mais saudável pelo contrário. Cada vez que isso acontece, presta-se um desserviço ao esporte.
O absurdo se repete no Brasil com frequência estarrecedora — e não escolhe cor de camisa. Centros de treinamentos invadidos por torcedores uniformizados, patrimônio destruído, jogadores ameaçados e constrangidos, clima de medo instalado.
E por que isso acontece? Por dois motivos: impunidade e cultura.
Quem comete esses crimes raramente sofre qualquer punição efetiva. O torcedor uniformizado precisa ser tratado como qualquer cidadão: se comete um crime, deve ser responsabilizado. Mas a responsabilização real, no Brasil, quase nunca vem.
Além disso, a histórica relação promíscua entre clubes e torcidas organizadas alimenta esse ciclo de violência. Ingressos em troca de favores, apoio político comprado, dirigentes que temem ou se submetem a líderes dessas torcidas. Existe uma dependência tóxica, mantida por conveniência, covardia ou oportunismo.
A relação pode e deve existir. Mas precisa mudar. Precisa ser transparente, responsável, profissional. E isso passa por uma revolução na gestão dos clubes brasileiros, que ainda operam como feudos em vez de instituições sérias.
Na última quarta-feira, o CT do Sport foi palco de mais um episódio lamentável. Torcedores organizados invadiram as instalações do clube, ameaçaram e agrediram jogadores o atacante Pablo, por exemplo, foi vítima direta. O caso ganhou repercussão nacional e teve consequências práticas: dois jogadores que estavam em negociações avançadas com o Rubro-negro desistiram de assinar.
Em nota, a diretoria do Sport admitiu que sabia da presença dos torcedores no local, mas alegou que eles entraram sem autorização, coagindo atletas e comissão técnica. Ora, saber e não agir é o quê, senão cumplicidade?
A CBF finge que não vê. Os clubes silenciam. A imprensa, muitas vezes, trata com superficialidade. E seguimos empurrando o problema para debaixo do tapete, como se não estivéssemos indo direto para o abismo.
Até quando?






