
Cansado de ouvir que “o Estado está te roubando”? A narrativa é simples, direta e perigosamente incompleta. A discussão sobre impostos no Brasil é crucial, mas precisa ser feita com fatos, não com slogans de efeito. A começar pela ideia de que uma arrecadação recorde é, por si só, prova de um assalto. Na realidade, é em grande parte um sintoma de economia aquecida. A conta é simples: empresas vendem mais, pagam mais impostos. Mais gente empregada, com mais renda, gera mais contribuição. Uma arrecadação robusta, antes de ser motivo de fúria, é um reflexo de que a roda da economia está girando.
O verdadeiro nó da questão não é o volume arrecadado, mas o endereço do boleto. O problema central do Brasil é de quem se arrecada. Nosso sistema tributário é uma anomalia regressiva: pesa uma tonelada nas costas dos mais pobres e da classe média, enquanto passa a mão na cabeça dos mais ricos. A maior parte da receita vem de impostos sobre o consumo. O tributo embutido no seu botijão de gás e na sua conta de luz é proporcionalmente muito mais pesado para quem ganha um salário mínimo do que para quem recebe milhões. Enquanto isso, lucros e dividendos bilionários são isentos de Imposto de Renda desde 1995, uma superproteção ao topo da pirâmide que não se vê na maioria dos países desenvolvidos.
É para desviar o foco dessa injustiça central que surgem as cortinas de fumaça, como o debate sobre gastos pontuais do governo. Sim, toda despesa pública deve ser fiscalizada com lupa, mas focar no cartão corporativo enquanto se ignora a isenção de fortunas é perder o debate principal. A discussão útil não é essa, mas sim por que insistimos em financiar o Estado com o dinheiro do consumo do trabalhador, em vez de taxar de forma justa quem realmente pode pagar.
Nesse contexto, a maior distorção é a narrativa de que o governo só quer “criar mais impostos”. O que está em jogo com a Reforma Tributária é justamente o contrário: simplificar e fazer justiça. O objetivo é trocar cinco impostos confusos por um (IVA), reduzindo a burocracia que sufoca quem produz, e, principalmente, mirar em quem nunca pagou o justo. A tributação de fundos de super-ricos e de investimentos no exterior não é “aumento de imposto”, é o fim de privilégios. É chamar para a festa quem sempre ficou do lado de fora, só recolhendo os lucros.
A discussão sobre impostos não pode ser refém de uma narrativa simplista. O verdadeiro debate é sobre justiça fiscal. Antes de repetir que o Estado arrecada muito, a pergunta correta a se fazer é: ele arrecada de quem? Enquanto a conta pesar mais no prato de comida do que na distribuição de lucros de uma megaempresa, continuaremos sendo um país rico em desigualdades. A mudança não virá de cortes simbólicos, mas de uma reforma corajosa que coloque o dedo na ferida e faça a pergunta que importa: quem vai, finalmente, pagar a conta?






