
O Brasil registrou em 2024 o menor número de mortes violentas intencionais desde o início da série histórica, em 2011. Foram 44.127 vítimas, o que representa uma queda de 5% em relação a 2023 e de 8% em comparação a 2022. A tendência de redução nos assassinatos começou ainda no fim do governo Michel Temer e seguiu nas gestões de Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.
Apesar do dado positivo, o país convive com um paradoxo preocupante: o aumento da proporção de mortes causadas por intervenção policial. Em 2024, foram 6.243 mortes decorrentes de ações policiais — uma queda modesta de 2,7% frente a 2023, ritmo inferior ao da redução geral dos homicídios. O resultado é um crescimento relativo da letalidade policial dentro do total de mortes violentas.
Mais alarmante ainda é o recorte histórico: desde 2017, as mortes causadas por policiais cresceram 21% (de 5.179 para 6.243), enquanto os homicídios caíram 31% no mesmo período. Em 12 das 27 unidades da federação houve aumento nas mortes provocadas por agentes do Estado, o que evidencia uma concentração da violência na atuação policial e freia uma queda mais acentuada da violência no país.
Esse cenário contraditório se reflete na percepção da população. Mesmo com a redução dos índices de homicídios, a segurança pública continua entre as principais preocupações dos brasileiros. Em abril deste ano, pesquisa Datafolha apontou que 58% da população percebem aumento da criminalidade, demonstrando que a queda nas estatísticas não se traduz, necessariamente, em maior sensação de segurança.
O governo Lula tenta dar resposta a essa inquietação com a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, que tramita no Congresso Nacional. A proposta busca ampliar o protagonismo da União no combate ao crime, fortalecendo a atuação federal em articulação com estados e municípios.
Diante desse cenário, o desafio do Brasil é duplo: manter e acelerar a redução dos homicídios, ao mesmo tempo em que se revê criticamente a política de segurança baseada em confronto. Reduzir a letalidade policial, ampliar o controle e qualificação das forças de segurança e construir políticas públicas que previnam o crime sem recorrer ao excesso de força são passos fundamentais para avançar de forma mais justa, humana e eficaz. A segurança deve ser direito de todos — e não motivo de medo de muitos.






