
O verso icônico de “Nos Bailes da Vida”, que sentenciava que “o artista tem de ir aonde o povo está”, foi atropelado pela polarização. Na era dos extremos, a máxima foi reescrita: o artista vai aonde a sua ideologia manda.
A postura recente de Zezé Di Camargo – e de tantos outros, à direita e à esquerda – é o sintoma mais agudo de uma febre que tomou a cultura brasileira. Vivemos um dilema que empobrece a alma nacional: o que vale mais, o talento ou o crachá partidário? Esse limite tênue, que antes separava a obra do autor, foi implodido.
Hoje, milhões de brasileiros escolhem o que vão ouvir ou assistir não pela qualidade da melodia, não pela técnica vocal ou pela poesia da letra, mas pela cor da camisa que o artista veste no palanque.
Criamos o conceito bizarro de “playlist ideológica”. Se o cantor vota em X, metade do país o aplaude mesmo se desafinar; se vota em Y, a outra metade o cancela mesmo que ele seja um gênio. A arte, que deveria ser ponte, virou muro.
O mais triste não é ver o artista militando – é um direito dele como cidadão –, mas ver como reagimos a isso. O fenômeno revela uma sociedade profundamente adoecida.
Passamos a confundir fanatismo com autenticidade. No Brasil de hoje, o equilíbrio é visto como fraqueza, e o sectarismo é aplaudido como “personalidade forte”. É um sinal claro de imaturidade coletiva, de falta de diálogo e de uma tolerância que virou artigo de museu.
Deveríamos julgar um artista por suas qualidades estéticas. Você tem todo o direito de não gostar de sertanejo, de rock ou de MPB por questões de gosto, estilo ou harmonia. Mas deixar de consumir arte apenas porque o criador não reza na sua cartilha política é apequenar a própria experiência humana.
Se continuarmos nessa toada, teremos uma cultura estéril, segregada em bolhas, onde só ouvimos o eco da nossa própria voz. A arte não foi feita para confirmar nossas certezas eleitorais, mas para desafiar nossos sentidos.
Como disse o poeta Ferreira Gullar: “A arte existe porque a vida não basta.” Se transformarmos a arte em mera extensão da política partidária, então nem a arte bastará; sobrará apenas o vazio do nosso próprio ódio.






