
Há um curioso método de debate entre os setores da esquerda radical que tratam qualquer conservador como inimigo: antes de ouvir o argumento, já deixam o veredito pronto. Declarou-se de direita? Fascista. Defendeu valores conservadores? Fascista. Expressou uma convicção cristã? Dependendo da plateia, o carimbo chega antes do ponto-final.
É uma praticidade extraordinária: dispensa leitura, contexto e até o trabalho de responder ao que foi dito.
Mas a palavra tem significado histórico. Fascismo designa uma ideologia autoritária e ultranacionalista, situada na extrema direita, que ganhou expressão na Itália de Benito Mussolini. Entre suas características estão a rejeição ao pluralismo democrático, a repressão à oposição e a subordinação das liberdades individuais ao poder autoritário. Trata-se de algo muito mais específico e grave do que discordar de uma pauta da esquerda.
Ser de direita, conservador ou cristão não torna ninguém automaticamente fascista. Essas identidades, por si só, não demonstram adesão à ditadura, à violência política ou à eliminação de adversários. Uma acusação dessa gravidade exige evidências sobre ideias e condutas, não antipatia pela religião ou pelo voto de alguém.
Isso também não significa conceder imunidade a quem se apresenta como conservador. Defender perseguição, violência ou ruptura democrática merece crítica e responsabilização, qualquer que seja a bandeira. O critério precisa ser o comportamento, aplicado com a mesma régua.
O sarcasmo se impõe quando alguém anuncia defender a diversidade, mas não suporta diversidade de pensamento. Quando prega tolerância, desde que todos concordem. Quando celebra a liberdade de expressão, mas considera um escândalo que o adversário também queira utilizá-la.
Uma democracia bastante peculiar: você pode pensar livremente, contanto que pense igual.
Há ainda um prejuízo sério nessa banalização. Transformar “fascista” em sinônimo de “pessoa de quem não gosto” esvazia a palavra e dificulta reconhecer as ameaças que ela deveria ajudar a identificar. A história vira xingamento; o debate vira disputa de rótulos.
A esquerda tem todo o direito de combater propostas da direita. A direita tem o mesmo direito de contestar a esquerda. Cristãos podem expressar suas convicções, e suas posições públicas também podem ser questionadas. Conviver democraticamente exige aceitar essa reciprocidade.
Antes de distribuir certificados de fascismo, portanto, seria recomendável apresentar argumentos. Dá mais trabalho, exige alguma leitura; que não é muito o forte da grande maioria, e não rende o mesmo efeito de um grito.
Mas tem uma vantagem considerável: respeita a inteligência do público.
Por Oscar Mariano







