
Em campanhas eleitorais, candidatos procuram construir imagens que resumam, em poucas palavras, aquilo que desejam representar para o eleitor. João Campos escolheu recentemente uma expressão bastante significativa. Durante agenda em São Lourenço da Mata, ao falar sobre problemas de abastecimento de água e necessidade de obras, afirmou: “Pernambuco precisa de um governador engenheiro.” João é, de fato, formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Pernambuco.
Do ponto de vista da comunicação política, a frase não é casual. Ao enfatizar a formação em Engenharia, o candidato procura associar sua imagem a conceitos como planejamento, capacidade de execução, conhecimento técnico e solução objetiva de problemas. É uma estratégia conhecida: transformar uma característica biográfica em símbolo de competência administrativa.
Mas existe uma consequência inevitável quando um político utiliza a própria formação profissional como argumento eleitoral: o currículo passa a ser confrontado com o exercício do poder.
João Campos comandou o Recife de janeiro de 2021 até abril de 2026, quando renunciou ao cargo para disputar o Governo de Pernambuco. Portanto, teve pouco mais de cinco anos à frente de uma das cidades brasileiras em que drenagem urbana, contenção de encostas e convivência com grandes volumes de chuva representam desafios permanentes da administração pública.
E aqui a análise precisa fugir tanto da propaganda quanto da caricatura.
Seria incorreto afirmar que a Prefeitura nada fez. Os números oficiais mostram crescimento expressivo dos recursos destinados à Ação Inverno: segundo a administração municipal, foram R$ 96,6 milhões em 2021, R$ 148 milhões em 2022, R$ 291 milhões em 2023 e R$ 314,5 milhões em 2024. A gestão também iniciou projetos de macrodrenagem na Bacia do Rio Tejipió, incluindo alargamento e dragagem de trechos do rio, reservatórios e parques alagáveis.
Essa é uma parte da realidade e precisa ser considerada.
A outra parte é que o problema dos alagamentos permaneceu perceptível no cotidiano do Recife durante sua administração. O próprio Plano Diretor de Drenagem da cidade, elaborado anteriormente, descrevia um território de constituição física frágil e fortemente marcado pela presença da água, com extensa rede de canais e galerias e necessidade estimada, à época, de cerca de R$ 1 bilhão em intervenções. Ou seja: João Campos não criou o problema e tampouco seria tecnicamente razoável imaginar que décadas de ocupação urbana problemática seriam solucionadas por um único mandato.
Mas é justamente aí que sua frase eleitoral ganha relevância política.
Em maio de 2022, durante seu segundo ano como prefeito, chuvas excepcionalmente intensas produziram uma das maiores tragédias recentes de Pernambuco. Em determinados locais do Recife foram registrados cerca de 236 milímetros de chuva em poucas horas, mais de 70% da média esperada para todo aquele mês. Houve mortes, deslizamentos, milhares de pessoas afetadas e grandes áreas da Região Metropolitana inundadas.
O volume excepcional de chuva impede qualquer explicação simplista baseada apenas na atuação de um prefeito. Ainda assim, o episódio expôs de maneira dramática a vulnerabilidade urbana acumulada pela capital.
Há, então, uma questão política legítima: quando um candidato apresenta sua condição de engenheiro como argumento para governar Pernambuco, quais resultados de engenharia urbana sua passagem pela Prefeitura oferece como referência?
A pergunta não significa dizer que um engenheiro deveria ser capaz de impedir chuva, nem que todo alagamento seja responsabilidade exclusiva do município. Significa apenas aplicar ao discurso eleitoral o mesmo critério proposto pelo próprio candidato: se a formação técnica é apresentada como diferencial, a execução administrativa passa naturalmente a fazer parte da avaliação dessa narrativa.
Há outro dado significativo. Em março de 2026, poucos dias antes da saída de João Campos da Prefeitura, a administração anunciou uma Ação Inverno de R$ 381,8 milhões, elevando para aproximadamente R$ 1,5 bilhão, segundo dados municipais, o investimento acumulado desde 2021. Também foram iniciadas obras de quase R$ 60 milhões para reservatórios, canais e microdrenagem na região da Abdias de Carvalho e BR-232.
Isso permite duas leituras simultâneas. A primeira é favorável à gestão: houve aumento de investimentos e projetos de infraestrutura que, por sua própria natureza, exigem anos para apresentar resultados completos. A segunda é crítica: depois de mais de cinco anos de administração, algumas das intervenções mais estruturadoras contra pontos históricos de alagamento ainda estavam começando quando João Campos deixou o cargo.
E talvez seja essa a reflexão mais interessante.
O diploma comprova formação acadêmica. A capacidade de governar, porém, é medida por prioridades, execução, continuidade das políticas públicas e resultados verificáveis.
Quando João Campos afirma que Pernambuco precisa de um “governador engenheiro”, transforma sua profissão em argumento político. A partir desse momento, não basta perguntar onde ele estudou Engenharia. Passa a ser razoável perguntar o que a engenharia da sua administração conseguiu transformar no Recife e quais problemas permaneceram esperando solução.
Em política, currículo pode apresentar um candidato. É a experiência concreta de governo, entretanto, que fornece ao eleitor os elementos para avaliar o significado dessa credencial.
Por Oscar Mariano





