São João: Ativo Estratégico ou apenas Festa Sazonal?

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Foto: Google

Vamos falar a real, sem rodeios. Tem muita gente que ainda olha para o São João de Caruaru como se fosse apenas uma festa que dura trinta dias, um gasto público com palco e som. Se você pensa assim, sinto informar, mas você está lendo o balanço financeiro da nossa cidade de cabeça para baixo. O São João é, na verdade, a nossa maior operação logística e comercial do ano. É o momento em que o “sangue” do capital gira com força total nas veias do Agreste.

Para quem produz, emprega e movimenta a economia do Agreste, o ciclo junino não é despesa; é investimento em infraestrutura e vitrine de mercado.

A provocação, entretanto, reside na eficiência com que gerimos esse ativo. Estamos de fato perenizando os ganhos ou apenas vivendo da euforia temporária?

A grande sacada dos últimos anos, que precisa ser blindada e ampliada, é a descentralização. Levar a festa para a Zona Rural — para os distritos que antes só viam a poeira dos carros indo para o Pátio do Forró — não é “caridade” ou apenas política. É estratégia de mercado.

Quando a gestão municipal leva o São João para o campo, ela é obrigada a levar junto o que a comunidade rural precisa o ano todo.

É uma estratégia inteligente de capilaridade econômica. Ao levar a estrutura para o campo, o poder público viabiliza uma dinâmica de “ganha-ganha”.

A necessidade do evento impõe a melhoria imediata de estradas, iluminação e conectividade, serviços que permanecem como legado para o escoamento da produção agrícola e para o cotidiano do morador rural.

O fluxo de capital deixa de se concentrar exclusivamente no Pátio do Forró e nas instalações urbanas e passa a irrigar o comércio dos distritos, gerando renda direta onde o Estado costuma ter menos alcance.

O desenvolvimento de Caruaru não pode ser limitado ao perímetro urbano. Utilizar o São João como “ponta de lança” para levar serviços essenciais às comunidades rurais é uma forma pragmática de diminuir o abismo entre a cidade e o campo.

Agora, vamos ao ponto onde estamos falhando como empreendedores do próprio território. Caruaru é conhecida mundialmente pelo barro e pelo forró, mas por que ainda não temos uma rota consolidada de ecoturismo?

Nós temos um relevo privilegiado, serras que pedem trilhas, ciclismo de aventura e rapel. Somos destino de passagem das rotas 4×4 ou das bike, mas ainda seguimos vendo o turista indo gastar o dinheiro em Bonito ou nas praias do litoral Sul. Por que não temos um trade turístico que venda o nosso próprio “quintal”?

O ecoturismo é a chave para manter a economia girando de janeiro a janeiro, e não apenas em junho.

Imagine pousadas de charme, rotas gastronômicas de trilha e parques de aventura operando no Murici, no Pau Santo ou em Serra Velha.

O São João provou ser uma máquina de movimentar o PIB municipal. O desafio agora é evoluir da mentalidade de “festa” para a mentalidade de gestão de destino. Integrar a zona rural de forma definitiva e explorar o ecoturismo não são apenas ideias interessantes; são imperativos para uma cidade que se pretende líder regional.

Caruaru precisa decidir se continuará sendo apenas o palco de um grande evento ou se assumirá o protagonismo como um polo turístico multifacetado e permanente. O capital não dorme, e o nosso território tem muito mais a oferecer do que apenas trinta dias de sanfona.

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