ARTIGO — Hospital da Criança: quando a propaganda chega antes da obra, por Oscar Mariano

Foto: Divulgação
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O Recife não precisava de inaugurações apressadas, fita cortada e imagens para redes sociais. Precisava de hospital efetivamente concluído, plenamente equipado, com leitos disponíveis, equipes completas e atendimento digno para as crianças que dependem do SUS.

O Hospital da Criança do Recife foi inaugurado em 2 de abril de 2026, no último dia de João Campos à frente da Prefeitura. Mas, mesmo após a solenidade, a obra continua recebendo intervenções, pagamentos e aditivos. Um equipamento anunciado como entregue ainda tem serviços complementares em andamento e prazo de conclusão prorrogado.

Não se trata de detalhe burocrático. Trata-se de dinheiro público, planejamento e responsabilidade administrativa.

O contrato original da obra partiu de pouco mais de R$ 100 milhões. Com sucessivos termos aditivos, contratos complementares e reajustes, o custo global já ultrapassou R$ 227 milhões, mais que o dobro do valor inicialmente contratado. Em junho, dois meses depois da inauguração, foi assinado novo aditivo de R$ 8,5 milhões para serviços extras, somado a outros acréscimos contratuais.

Há ainda questionamentos graves dos órgãos de controle. O Tribunal de Contas de Pernambuco instaurou auditoria especial para apurar indícios apontados por sua área técnica, enquanto o Ministério Público de Pernambuco abriu inquérito civil sobre a contratação e a execução da obra. O Tribunal de Contas da União também abriu procedimento para examinar o caso, envolvendo recursos federais, e recentemente apontou falhas de transparência na divulgação de dados contratuais relacionados ao hospital.

As crianças recifenses não poderiam servir de figurantes para propaganda institucional. Famílias que aguardam atendimento não precisam de vídeos bem editados; precisam de estrutura funcionando de verdade. Saúde pública não se administra com filtro de rede social, e obra pública não se entrega pela metade para atender ao calendário político.
João Campos tem o dever de explicar por que um hospital inaugurado como grande entrega ainda precisa de obras, aditivos e novos desembolsos? Deve explicar por que uma obra inicialmente contratada por cerca de R$ 100 milhões ultrapassou R$ 227 milhões? E deve explicar por que informações tão relevantes não foram apresentadas à população com a transparência que o dinheiro público exige?

O Hospital da Criança precisa ser um símbolo de cuidado com a infância, não um retrato de uma gestão em que a propaganda parece ter chegado antes da obra.

Oscar Mariano é jornalista e analista político

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Pedro Augusto
Pedro Augusto atuou como repórter dos jornais Extra de Pernambuco e Vanguarda, ambos de Caruaru, e dos portais NE10 e NE10Interior, do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação. Também já teve matérias publicadas em jornais de grande circulação como Folha de Pernambuco, Diario de Pernambuco e Jornal do Commercio, além dos portais Terra e R7. Foi ainda assessor de Comunicação da Prefeitura de Caruaru, de parlamentar na Câmara de Caruaru e do Clube Atlético do Porto.