Por João Américo
Torcer pela Seleção em Copa do Mundo era — e faço questão de grafar no pretérito imperfeito do indicativo — um ato patriótico quase unânime. Havia uma época em que o povo brasileiro, do porteiro ao banqueiro, sentia orgulho e esperança ao olhar para o campo. A gente não dizia “o time vai jogar”; a gente dizia “o Brasil vai jogar”. Era o nosso amálgama social.
Mas algo se quebrou, e a recente convocação de Neymar é o sintoma mais claro dessa fratura exposta. A “Pátria de Chuteiras”, imortalizada por Nelson Rodrigues, virou definitivamente o país da bola dividida.
A polarização política, que rachou a nação ao meio nos últimos anos, invadiu o gramado sem pedir licença. A convocação do camisa 10 deixou de ser avaliada por critérios técnicos para ser julgada pelo crachá ideológico. Apoiador declarado do ex-presidente Jair Bolsonaro, Neymar carrega a antipatia visceral de boa parte da esquerda. Em contrapartida, a direita enxergou no atleta uma qualidade adicional para incensá-lo, elevando-o à categoria de mártir conservador.
Não há inocentes nessa jogada. Não por acaso, minutos após o anúncio feito pelo técnico Carlo Ancelotti, o candidato de oposição Flávio Bolsonaro festejou a notícia utilizando o episódio como uma peça descarada de campanha presidencial. A convocação esportiva virou comício.
O estrago, porém, vai além dos nomes; ele atinge o nosso maior símbolo esportivo. A apropriação ostensiva da camisa da CBF por eleitores e simpatizantes do bolsonarismo sequestrou a Amarelinha. Hoje, uma parcela gigantesca de torcedores prefere assistir aos jogos de preto, azul ou sem camisa, pelo simples pavor de vestir o amarelo e ser confundida com um militante partidário na rua. O manto que era de todos virou farda de um lado só.
O resultado dessa miopia coletiva é desolador: o fenômeno cultural mais genuíno do Brasil — o ritual de parar o país para vibrar na Copa do Mundo — perdeu o encanto, o brilho e o seu poder de união.
O desafio da Seleção na Copa não é apenas tático ou esportivo. A verdadeira missão de Ancelotti e seus convocados vai muito além de trazer a taça; eles têm a tarefa hercúlea de tentar reunir, sob a mesma bandeira, um Brasil dividido que desaprendeu a torcer pelo próprio reflexo.








