O título de cidadão honorário é uma das maiores honrarias que um município pode conceder. Em tese, serve para reconhecer pessoas que prestaram serviços relevantes à cidade, deixando um legado concreto para sua população. É uma homenagem séria, que deveria ser reservada para quem efetivamente contribuiu para o desenvolvimento local.
Mas, em ano eleitoral, parece que algumas câmaras municipais descobriram uma nova função para a honraria: transformá-la em ferramenta de marketing político.
De repente, surge uma verdadeira epidemia de títulos de cidadão para pré-candidatos. O que antes era uma exceção vira rotina. O que deveria ser reconhecimento institucional passa a se confundir com ato de campanha antecipada.
O caso do ex-prefeito João Campos é emblemático. Cotado como candidato ao Governo de Pernambuco em 2026, o ex-prefeito do Recife vem acumulando títulos de cidadão em diversas cidades. Recebeu homenagens em municípios como Angelim, Garanhuns, São Bento do Una, Petrolândia e Jaboatão dos Guararapes, além de articulações para novas homenagens em Olinda. Em muitos casos, as iniciativas partiram justamente de vereadores e lideranças políticas alinhadas ao seu projeto eleitoral.
A pergunta que fica é simples: essas cidades estão homenageando um cidadão pelos serviços prestados ou estão ajudando a construir uma candidatura?
Porque convenhamos: se cada município onde um político pretende disputar votos resolver transformá-lo em “filho da terra”, daqui a pouco ele terá mais certidões de nascimento do que propostas para apresentar.
É curioso observar que muitos desses títulos surgem justamente quando o nome do homenageado caiu nas pesquisas e se movimenta pelo interior em pré-campanha. Coincidência? Nenhuma. Digamos que seja coincidência, está ocorrendo com uma frequência impressionante.
No fim das contas, quem perde é a própria honraria. O título de cidadão deixa de ser um reconhecimento extraordinário para se tornar um gesto protocolar de alinhamento político. E quando toda cidade vira palco de homenagens para quem busca votos, a população tem o direito de desconfiar se está assistindo a uma solenidade institucional ou a um comício disfarçado.
Afinal, cidadão honorário se faz com serviços prestados. Cabo eleitoral honorário se faz com aplausos, discursos e conveniências políticas. A diferença entre uma coisa e outra deveria ser muito clara. Mas, em período eleitoral, parece que alguns preferem deixar essa fronteira convenientemente borrada ou platinada.
Oscar Mariano
Analista Político









